Coluna Seabra Neto

Entrevista: Aguinaldo Viriato foi eleito o Homenageado do Ano no PPP 2017

11 out 2017 por Seabra Neto

Dois meses após ter deixado o mercado publicitário, no qual atuou por mais de 25 anos, com o objetivo de se dedicar à consultoria e à política, o empresário Aguinaldo Viriato, ex-presidente da Ampla Comunicação, recebeu o título de Homenageado do Ano durante a oitava edição Prêmio Pernambucano de PropagandaPPP 2017, promovido pelo Sindicato das Agências de Propaganda de Pernambuco – Sinapro-PE, com apoio da Globo Recife. Para falar sobre a emoção da premiação, do cenário da propaganda e dos seus planos fora desse mercado, Viriato concedeu, com exclusividade, uma entrevista para a coluna. Acompanhe a entrevista:

Seabra Neto – Como foi ter recebido o título de Homenageado do Ano no Prêmio Pernambuco de Propaganda – PPP 2017?

Aguinaldo Viriato – Foi um privilégio! Uma grande emoção! Este título tem um significado muito especial e importante, porque não se refere apenas ao julgamento de um projeto específico nem a um período particular. O objetivo da premiação é de reconhecer, via nosso sindicato (Sinapro-PE), o conjunto da contribuição ao negócio da publicidade ao longo da carreira de quem recebe esta homenagem. É também a evidência do carinho dos companheiros do mercado com quem compartilhei aprendizados, muitos desafios e resultados positivos por mais de 25 anos. Meu sentimento ao receber a Medalha Severino Queiroz foi de orgulho e muita alegria.

Seabra Neto – Você recebeu essa homenagem logo após se despedir do mercado publicitário para assumir novos desafios em outros segmentos. A premiação mexeu com seu coração?

Aguinaldo Viriato – Há um sentido afetivo neste título que, na minha avaliação, é ainda mais gratificante e amplia o alcance da homenagem. Ao merecer esta medalha depois de já haver me despedido do mundo da publicidade, entendo que se fez uma generosa avaliação da minha carreira e que deixei uma marca positiva no mercado. Tudo isso, mais a presença de tantos amigos de várias agências, veículos e parceiros dessa longa jornada no dia da festa, realmente mexeu muito com meu coração. Vou guardar para sempre.

Seabra Neto – Em sua opinião, qual a importância do Prêmio Pernambuco de Propaganda para o mercado publicitário?

Aguinaldo Viriato – O PPP, como é carinhosamente chamado, tem características próprias e especiais para o mercado pernambucano. Não é simplesmente mais um prêmio. Embora seja julgado por especialistas regionais e nacionais, o seu foco é Pernambuco. Há um grande envolvimento das agências, inclusive as do interior do estado. Esse processo abre oportunidades e alternativas importantes para os profissionais e as empresas locais. Sob a chancela do Sinapro-PE e com o apoio da Abap-PE, mobiliza patrocinadores do estado e conta com o suporte dos veículos de Pernambuco. Tudo isso fortalece o mercado publicitário de Pernambuco e assegura prestígio ao evento.  Assim, ano após ano, o PPP amplia a participação das agências locais e tem contribuído para revelar muitos talentos.

Seabra Neto – Em seu discurso, você falou sobre as transformações que vêm impactando o mercado publicitário nos últimos anos. Que mudanças são essas e como você vê o futuro da propaganda?

Aguinaldo Viriato – O mundo moderno vivencia mudanças profundas nos hábitos e comportamentos das pessoas. Ninguém mais é consumidor passivo, seja de marcas, produtos, mensagens, tecnologia ou inovação. A busca por constante interatividade e compartilhamento é uma evidência do ambiente contemporâneo. Em tudo!  Consequentemente, o negócio da propaganda está passando por uma profunda transformação de forma, conceito e conteúdo. Sofre esses impactos a partir da própria revolução digital e seus impulsos sobre a maneira e os instrumentos de fazer comunicação. Nesse contexto, as empresas que pesquisam, planejam, criam e produzem propaganda ou outras ferramentas do diversificado e mutante universo da comunicação têm de se adaptar e/ou se antecipar a essa evolução. O que gera perplexidades, potencializa conflitos, traz muitas perdas e inquietações e cobra grandes mudanças.  Essa efervescência assusta. Requer inteligência, planejamento, desapego. Mas proporciona ganhos e oportunidades de sobreviver, crescer e prosperar para quem conseguir interpretar as tendências; atender com inovação e eficiência ao consumidor; oferecer qualidade e criatividade e ser competitivo.  Não é tão simples, pois nada mais parece ser (e não é) mais como foi antes. Mas é o mundo real, o fabuloso e desafiador novo mundo da publicidade.

Seabra Neto – Você também ressaltou que o profissional de propaganda, hoje, tem de atuar como consultor de marca, e não apenas como publicitário. Como funciona essa lógica?

Aguinaldo Viriato – Exatamente. Não tenho a pretensão de saber o caminho das pedras, mas estou convencido de que o entendimento desse processo requer um novo perfil profissional. E cobra que as empresas operem com base numa organização multidisciplinar. As agências não devem ser apenas especialistas em propaganda, ou em live marketing, ou nisto ou naquilo. Se elas se propõem a desenvolver soluções de comunicação de marca, precisam começar por compreender muitíssimo bem suas relações. Devem, antes de tudo, entender sobre o negócio do cliente; conhecer o mercado e os consumidores; vivenciar e interpretar a empresa para quem trabalha e criar um ambiente favorável e capaz de oferecer respostas às demandas crescentes por maior interatividade, convivência com essa marca, competitividade e diferenciação. Esses são alguns dos fatores que podem ajudar a garantir resultados, a reverter o esforço despendido na propaganda, redes sociais, live marketing e demais disciplinas, vendas e sustentabilidade. Afinal, é para isso, entre outros, que se propõe o investimento em comunicação. Essa equação complicada, às vezes subjetiva e desafiadora, que requer inteligência e parcerias, passa invariavelmente pela cultura digital e por soluções de tecnologia. Todo esse pacote vai exigir análises financeiras, avaliações estratégicas, planejamento e que a “agência” e seus representantes atuem muito mais como consultores do que como publicitários (tal como entendemos hoje), sem perder a sua essência criativa.

Seabra Neto – Outro tema abordado em seu discurso foi a disrupção. Como você analisa esse termo em relação ao mercado publicitário?

Aguinaldo Viriato – Disrupção, além de ser uma palavra difícil de dizer e complexa no significado, traduz, na essência, o que tentei explicar acima. Há necessidade de compreender e praticar a ruptura nos modelos, nas práticas e nos conceitos atualmente em uso. Não por modismo, mas por necessidade. A disrupção deve acontecer tanto nos formatos e na lógica da gestão do negócio e das pessoas, quanto na maneira de exercer a propaganda. As agências e os publicitários, bem como o conjunto das empresas no ambiente de transformações em que vivemos, precisam compreender a extensão das mudanças tecnológicas, a vitalidade e quase onipresença da realidade digital em todos os aspectos da vida das pessoas e das empresas. Precisam decodificar as rápidas e constantes mudanças de comportamento e a complexidade das demandas dos consumidores. Não sou alarmista, muito menos pessimista, nem profeta do caos, ao contrário. Mas me atrevo a dizer, tentando ser apenas realista, que, sem essa leitura do que acontece diante de nossos olhos, corremos o risco de enfrentar graves consequências e ver muitas de nossas empresas desaparecerem.

Seabra Neto – Você também discorreu sobre o formato de agência multidisciplinar, que exige mais racionalidade administrativa, planejamento estratégico, análises e avaliações. Você acredita que as empresas pernambucanas estão atuando dentro desse padrão?

Aguinaldo Viriato – Sim, não apenas acredito, mas vivencio isso. Temos aqui excelentes exemplos. Raros, mas muito inspiradores. O mercado atual é competitivo e não demonstra tolerância com ineficiências e conservadorismos. Esse é um processo difícil e muitas vezes lento, porque mais do que investimento financeiro, ele requer decisão e principalmente desapego. Não é simples mudar comportamentos, mentalidade, nem padrões, processos, costumes e, algumas vezes, ter de mudar pessoas-chave na organização. O custo é alto, no sentido de enxergar as vantagens a médio e longo prazo, mas ter de pagar o preço de incompreensões e turbulências no curto prazo. Mas, administrar é isso e pressupõe assumir riscos. Além de tudo, isso não é commodity e preciso preservar os valores e a cultura da empresa, manter a identidade e a personalidade da organização e saber valorizar o capital humano, que é o grande ativo de nosso negócio.

Seabra Neto – Em sua análise, quais são os maiores desafios para o publicitário e as agências na atual conjuntura política e econômica do país?

Aguinaldo Viriato – Pensando do ponto de vista estritamente político e na economia do Brasil, não creio que o nosso negócio seja diferente dos demais. Atualmente, somos todos dependentes da falta de estabilidade econômica e órfãos da confiança nos agentes políticos para alavancar o crescimento sustentável da economia. Falta liderança. Esse é o grande “xis” do processo de desenvolvimento nacional atual. Falta credibilidade nos atuais dirigentes e não há uma liderança que mereça respeito para mobilizar a nação em torno de um projeto. Além disso, com tristeza temos de registrar que não existe tal projeto, nem há legitimidade no ambiente institucional e político que aí está para levar adiante uma proposta viável de reformas, investimentos em políticas públicas, medidas e ações que certamente iriam provocar polêmicas, demandar sacrifícios das pessoas, das empresas e das instituições. Um projeto que, antes, precisaria corrigir anos e anos de corrupção e desmandos para ser capaz de criar uma base confiável de construção. Seriam necessárias novas eleições que dessem uma nova oportunidade ao povo de escolher melhor e sobreviver. Simples assim: vai levar muito tempo para recuperar o tempo perdido.

Seabra Neto – Para encerrar, quais são seus planos e metas para encerrar o ano de 2017 e o que você espera de 2018?

Aguinaldo Viriato – Meus planos são simples. Uma coisa é certa: não pretendo me dedicar ao negócio da publicidade. Encerrei um ciclo de mais de 25 anos nessa atividade, em que vivi uma experiência positiva, prazerosa e feliz, a maior parte na Ampla. Achei que era hora de mudar de rumo e viver novos desafios. Por isso, saí da empresa e do segmento. Estou iniciando um trabalho que me motiva e me atrai bastante no mercado de consultoria, sobretudo dedicado a projetos voltados para a gestão municipal. Também há desafios e oportunidades que estou desenvolvendo nesse segmento, porém na área privada. Temos aí pela frente uma campanha política e eleições importantes, em que desejo ter uma participação ativa.  Em médio prazo, não descarto morar em Portugal.  São planos, com muito entusiasmo. Vamos observar.

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